O caso do poema roubado – Homenagem a Cora Rónai

Quando descobri que a Cora Rónai me segue no Twitter, me senti um convidado da a Ilha de Caras, ou seja, uma celebridade !

Sou fã de carteirinha dos textos dela desde a época que lia o caderno de informática da Folha e ela era a Editora Chefe do caderno !

Agora ela me lê ! Lega né ?

Este texto ilustra bem o motivo de minha “fanzisse” !

O caso do poema roubado (O Globo)

Por Cora Rónai – fotógrafa, jornalista, colunista de jornal e autora de livros e peças para crianças.


Há coisa de dois ou três meses apareceu, no portão do sítio, um pacote grande, embrulhado num saco de lixo preto. Ninguém viu quem trouxe.

Amanheceu e estava lá. Assim que foi notado, ficaram todos da casa, bípedes e quadrúpedes, muito cabreiros com a sua presença. Nos dias de hoje, ninguém vê com confiança ou simpatia pacotes grandes, embrulhados em sacos de lixo pretos.

Os cachorros cheiraram e latiram, os gatos mantiveram distância, o Dirceu olhou de longe, cutucou com uma vareta, chamou Mamãe. O conteúdo parecia ser duro, sólido, como madeira. Não era nada morto, com certeza. E não parecia ser bomba, muito embora ninguém da família tenha a mais remota idéia de como seja uma bomba, salvo pelo que se vê no cinema e nos desenhos animados.

Finalmente, depois de mais cutucadas e de muita hesitação, o pacote foi trazido para dentro, e aberto com o cuidado que a desconfiança recomendava.


Quando o conteúdo se revelou, surpresa total:
Quem poderia imaginar que um poema roubado há 30 anos voltasse ao lar daquela maneira?!


Quando o sítio ficou pronto, em princípios dos anos 60, uma das
primeiras providências dos meus pais foi espalhar pelo jardim e pela floresta uma dúzia de poemas. Papai os selecionava, Mamãe os pintava em tabuletas e ambos escolhiam juntos, com capricho, as árvores e os cantinhos onde seriam expostos.

Passear pelo sítio era como entrar numa pequena antologia sentimental.

Com o tempo, as tabuletas foram sumindo. Algumas queimaram junto com as suas árvores nos incêndios que, há alguns anos, eram comuns na região e que, apesar dos esforços do pessoal lá de casa, eventualmente atingiam partes do terreno. Outras foram vítimas do tempo. A maioria, porém, desapareceu sem deixar vestígios.

O poema devolvido chama-se “Casa antiga”, foi escrito em 1964 por minha madrinha Cecília Meireles e dedicado a Nora e Paulo Rónai:

Forrarei tua casa já tão antiga

Com um papel que imita as paredes de tijolo.

Ficará tão lindo como se estivéssemos na Holanda.

Forrarei tua casa assim, mas por dentro,

De modo que, longe de todas as vistas,

Será como se estivéssemos ao ar livre, no jardim.

E deixarei uma parede quebrada? Não uma porta, não uma janela:

Uma parede quebrada por onde passe um ramo de goiabeira

Carregado de flores e vespas.

Parecerá que estamos sonhando,

E estamos sonhando mesmo,

E parecerá que estamos vivendo,


E a vida não é mesmo um sonho impossível?

Dentro do pacote, junto com a tabuleta, veio um bilhete escrito em letra  pouco cultivada, na folha arrancada de um caderno.

Dizia o seguinte:

“Quando era menino achei este quadro lindo, pelo poema. Peço perdão por ter roubado este quadro. Hoje me converti a Jesus e sinto necessidade de devolvê-lo. Sinto-me envergonhado pela minha atitude. Mas, era só um menino. Peço perdão a Deus e a vocês. E que vocês também consigam perdoar”.

Não havia nome, assinatura, nada.

Ficamos com muita pena, pois teríamos gostado de conhecer e abraçar o menino antigo que roubou o poema, e o homem correto que o devolveu, passados tantos anos.

Mal sabe ele que nos deu um presente muito maior do que o que levou:

Um mundo onde crianças roubam poemas e adultos os devolvem é um mundo de beleza e de esperança.

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Tática para conseguir emprego !

Este é boa ! Isto é que é amigo !

httpv://www.youtube.com/watch?v=HKV0QuQsonk

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O Caso da Pranchinha!

plasmic_kneeboardEu sempre tive vontade de comprar aquelas pranchinhas de madeira que são usadas para esquiar ajoelhado.

Via o pessoal usando em Escarpas mas meu pai falava que eu tinha que comprar com minha mesada e aí a coisa complicava.

Naquele ano, feriadão de semana santa chegando, eu e o Leozinho meu amigo fizemos um plano para comprar a pranchinha: Pedi ao meu pai que completasse com uma graninha o montante que eu e o Leozinho tínhamos juntado de nossas mesadas para comprar nossa tão sonhada pranchinha (naquela época de madeira e hoje de fibra de vidro, como da foto aí ao lado) !
Meu pai topou na hora, todo orgulhoso da economia que nós tínhamos feito!

O que ele não sabia é que eu ía entrar com R$ 10,00, o Leozinho com R$ 10,00 e ele com R$ 980,00!!  Mas isto são detalhes da operação que preferi não comentar com ele para não dar zebra.

Grana na mão lá fomos eu e Leozinho comprar o treco.
Incrivelmente, nosso poder de convencimento fez o vendedor nos dar um desconto de R$ 20,00, o que nos fez não precisar usar as nossas economias para aquela compra !

Pranchinha comprada, agora era só esperar o feriadão.

Esperamos ansiosamente e no dia da viagem mal víamos a hora de chegar em Escarpas e pegar a lancha para estrearmos o brinquedo.

Na quinta-feira fomos então eu, Leozinho, meu pai e a namorada dele para nossos dias de descanso e eu todo orgulhoso da nossa pranchinha falei a viagem toda do que íamos fazer com ela.

Chegando lá, quase nem esperamos o carro parar e já saímos correndo para a garagem da lancha para prepara-la para sair.

Lá longe ouvimos os protestos do meu pai pois nem ajudar a descarregar as malas nós ajudamos !

– Depois a gente ajuda ! Gritei para meu pai certo que este depois nunca chegaria !

Lancha limpa, tanque cheio, fomos para a lagoa iniciar nossa aventura !

Leozinho pula na água e ja vai se ajeitando na pranchinha. Arranco a lancha e o cara cai…

Segunda tentativa, a mesma coisa.. Terceira.. quarta… Perdi a paciência !

– Pô Leozinho, mas ce é ruim demais ! Sobe aqui que eu vou esquiar !

– Mas eu não sei pilotar lancha cara !

Putz, esta era a última coisa que eu queria ouvir aquela hora, seco que tava para esquiar !

– Tudo bem ! Sobe aqui que eu te ensino e depois eu entro na água !

– Presta atenção: Alavanca no Neutro (N), liga na chave, espera o motor estabilizar ! Alavanca para frente (T), acelera, alavanca para trás até no N, diminui. Alavanca no R, ré ! Não pode passar do T para o R direto.. tem que parar no N, esperar o motor estabilizar a Marcha lenta e colocar no R. O resto é só direção que não precisa explicar né ? Agora cara, cuidado, esta porra não tem freio !! Para parar demora um tempão sacou ! Diminui beeeeemmm antes para ela parar sacou ?!

– Claro ! Mole !

– Vamos dar umas voltas antes de eu cair na água !

Leozinho assume a direção, liga a lancha, espera a marcha lenta, acelera e vão embora. Andamos por quase 2 minutos! Tá bom demais !

– Para aí que vou cair na água !

Pulei e o Leozinho mandou a pranchinha ! Me arrumei em cima dela, segurei com força na corda e gritei:

– Vai !

O FDP do Leozinho parecia o Felipe Massa quando vê a luz verde no grid de largada ! Deu motor de uma vez na lancha e quase arrancou meus dois braços de uma vez !

– PORRA LEOZINHO ! Ce ta doido ?! Arranca devagar porra.. vai dando motor devagar até eu sair da água e fica de olho em mim. Quando eu der sinal que já to equilibrado, ce da motor ! Beleza ?

– Beleza ! Foi mal cara ! Achei que tinha que dar motor porque ce é meio gordinho e a lancha não ía aguentar !

Tudo bem, fingi que não ouvi o insulto e to lá e preparando de novo para começar.

– Vai !

O Leozinho arranca parecendo uma lesma… Não tinha velocidade para sair da água e fiquei lá tomando uns bons litros dágua até resolver soltar a corda para o animal perceber que naquela velocidade não dava.

– Mas vc falou para arrancar devagar porra ! Resolve como vc quer !!

– Arranca médio Leozinho, médio !

Prepara, arruma tudo: – VAI !

Legal, arrancou legal, velocidade boa, consegui sair da água, equilibrei e assoviei para o Leozinho dar motor. O cara deu motor devagar, tudo dentro dos conformes !

Bom demais aquele treco ! Fui me acostumando e já fazendo algumas manobrinhas. Quando me senti seguro dei sinal para o Leozinho acelerar mais.

O bichinho sentou a mão na alavanca e estavamos voando baixo ! Bom demais !

Até que fui fazer uma manobra mais radical e caí !

Nada grave comigo, só que o animal do Leozinho não percebeu minha queda e ta indo embora acelerando.

Fiquei la na água igual um cocô boiando com o colete vendo a lancha ir embora a toda velocidade e a pranchinha voando atrás sem ninguém !

Quando o Leozinho resolve olhar para trás e não me vê na pranchinha, bateu um desespero e ele mete a mão na alavanca de uma vez e joga no neutro ! Só que deixou a lancha na reta da pranchinha !

Fechei o olho para não ver nada e só ouvi o barulho da pancada da pranchinha na lancha !

Quando abri o olho, a cena que eu vi foi o Leozinho com cara de desespero e milhões de pedaços de pranchinha em volta da corda dentro da água!

– PQP, fodeu ! Pensei com minha sunga !

Leozinho recolhe a corda e da a volta a lancha para me pegar.

Só pelo meu silêncio quando sai da água ele percebeu que estávamos encrencados.

Fui devagar pensando no que falar para o meu pai. Resolvi não falar nada. Vamos ver no que vai dar !

Paramos a lancha no pier e subimos mudos para a casa. Meu pai já estava na piscina com a namorada e quando me viu passando perguntou !

– E aí Rick ? A pranchinha é legal ?

– Legal demais pai !

– Bom, amanhã cedo vamos sair na lancha e quero dar uma esquiada nela !

O Leozinho começou a rir, chorar, engasgar, sei lá ! Emitiu uns 10 sons ao mesmo tempo…

Eu mantive a calma:

– Beleza Pai ! Mas vou para o meu quarto porque não to passando muito bem ! Acho que comi alguma coisa estragada na estrada. Até o Leozinho ta estranho !

– Tá bom. Qualquer coisa me chama !

E foi assim que passei o feriado de Semana Santa mais chato da minha vida, acompanhado do Leozinho, trancados no quarto fingindo estar com dor de barriga e enjôo.

Quanto a pranchinha, a nossa sorte foi que meu pai nem se lembrou dela nos passeios de lancha com a namorada e muito tempo depois ele deu falta e o caseiro falou que devia ter sido roubada porque ele não viu esta pranchinha lá na casa não.

Até hoje ele não sabe onde foi parar o treco ! 🙂

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